Com recursos e tecnologia, pessoas com deficiências auditiva e visual podem apreciar obras cinematográficas mesmo sem ouvir ou enxergar
Caroline Baptista
O cinema encanta a muitos com as grandes ou pequenas produções de filmes sobre realidade, ficção, história, entre outros. Não é à toa, que ele é considerado a sétima arte do mundo contemporâneo. Porém nem todos podem apreciar a cinematografia como as pessoas com deficiência.
Durante a Reatech, a segunda maior feira internacional de reabilitação, inclusão e acessibilidade para pessoas com deficiência, o cinema inclusivo foi uma das atrações que chamou a atenção de vários visitantes, independente de ter ou não deficiência. Entre os dias 14 e 17 de abril, estandes com telas, poltronas e fones de ouvidos apresentavam uma nova maneira de ver e ouvir filmes. Com recursos acessíveis como audiodescrição, janela de libras e subtitulação, pessoas com deficiências visual e auditiva tiveram a oportunidade apreciar obras cinematográficas.
Num estande lotado, Cássia Freitas, com o fone de ouvido, escuta atentamente a narração do filme. Ela é cega há cinco anos e desde então nunca mais tinha ido ao cinema. Mas na feira pôde fazer algo inédito: assistir a um filme. Com a audiodescrição, ela conseguiu imaginar todas as cenas e personagens do ‘curta’ religioso de cinco minutos. “Você entende as cenas, os ambientes e as ações dos atores”, comenta.
A audiodescrição é o recurso que consiste na descrição das informações visuais, não estão presentes em diálogos, como, por exemplo, expressões faciais, figurino, mudanças de tempo e espaço. Com ela, pessoas como Cássia, conseguem entender a informação contida na imagem ao mesmo tempo em que esta aparece, possibilitando o acompanhamento integral do filme, pois as descrições vão acontecendo nas pausas sonoras e se harmonizam com todo o filme. Outros recursos de acessibilidade, voltados às pessoas com deficiência auditiva, são as janelas de libras e subtitulação que dão acesso à informação sonora, como, por exemplo, as falas dos personagens, por meio da língua brasileira de sinais e legenda.
A novidade, apresentada na feira, foi a aplicação da tecnologia 3D nos filmes audiodescritivos. André Rocha, expositor do cinema em 3D pela associação religiosa Torre de Vigia explica que, pela primeira vez, inseriu-se a audiodescrição com a tecnologia binaural, ou seja, o som vai projetar uma sensação de tridimensionalidade. “O som possibilita a criação de holograma mental que dá ao cego a uma sensação semelhante à de assistir um vídeo em 3D”, explica.
O “Cinema Inclusão”, da ONG Mais Diferenças, foi outra atração da feira. A ONG apresentou o projeto que exibia filmes comerciais de curta duração com todos os recursos de acessibilidade: janela de libras e subtitulação, além da audiodescrição.
Todo trabalho de aplicação dos recursos acessíveis em filmes é feita pelas próprias instituições. Ana Rosa, coordenadora de comunicação da Mais Diferenças, explica que toda produção acessível é feita pela própria ONG. “Nós fazemos todos esses recursos, desde o roteiro da audiodescrição ou libras até a edição que acompanha o filme”. Na associação Torre de Vigia não é diferente, Rocha conta que a inserção dos recursos nos filmes é realizada por voluntários do projeto.
Esse tipo de cinema não é exclusivo para pessoas com deficiência. A exibição de filmes com recursos acessíveis permite que todas as pessoas possam desfrutar do momento. Para Ana Rosa, muitas vezes ele até auxilia no entendimento, independente da situação. “Os recursos de acessibilidade auxiliam também pessoas que não tem deficiência a entrar no contexto, perceber a arte e a linguagem cinematográfica de um jeito diferente, de compreender e usufruir”, conclui.