Projetar um imóvel acessível pode melhorar a qualidade de
vida, além de garantir independência, comodidade e segurança
Caroline Baptista
Joyce Cristina, 29 anos, vê a vida passar deitada em sua cama ou sentada na cadeira de rodas motorizada. Ela se lembra de quando ficou tetraplégica, há nove anos. Um passeio com o pai, briga de trânsito, tiros, hospital, coluna cervical... Após anos de fisioterapia, recuperou o movimento dos braços, o que lhe facilita a execução de algumas atividades. “Posso comer, escovar os dentes e pentear o cabelo”.
Há três anos, ela mora num apartamento no 11º andar, com cômodos pequenos, corredores e portas estreitas. Apesar de dificultar um pouco sua mobilidade, o imóvel foi escolhido por sua mãe, por ser próximo à faculdade onde trabalha e estuda, mas, para Joyce, locomover-se pelo apartamento é difícil. “Para entrar no meu quarto, preciso da ajuda da minha mãe para ajeitar a cadeira, pois as portas são estreitas e o cômodo é pequeno, não consigo girar a cadeira sozinha”, comenta.
Para tomar banho mais uma dificuldade, por não mover as pernas e parte do tronco, precisa novamente de ajuda. Num banheiro pequeno, ela não consegue entrar no box e tem que se banhar do lado de fora. Em tudo, Joyce se divide entre coisas que pode ou não fazer no espaço. “Consigo abrir portas por terem maçanetas de alavancas, que não exigem força, mas acender as luzes não, pois estão numa altura que não dá ”, lamenta.
Giovanna Maira também tem deficiência, mas seu caso é visual. Há 23 anos, quando tinha apenas um ano de idade, foi diagnosticada a perda total de sua visão. Ao se locomover usa o tato e a memória. “Nós cegos decoramos o posicionamento de cada mobília”. Apenas com esses dois sentidos, ela caminha tranquilamente por todos os ambientes sem nenhum recurso acessível. A jovem também ressalta que os móveis devem permanecer em locais fixos, “é preciso manter os móveis e demais coisas existentes na casa sempre no mesmo lugar, para que acidentes sejam evitados”.
Para dar conforto, segurança e autonomia a pessoas como Giovanna e Joyce, foram promulgadas no Brasil, leis e decretos que garantem acessibilidade em todos os ambientes, inclusive nas casas e apartamentos. A Arquitetura Inclusiva e o Desenho Universal são os principais meios de criar espaços e produtos usáveis por todos, independente da capacidade motora, cognitiva ou sensorial. Desenho Universal busca conceber espaços, equipamentos e produtos acessíveis a todas as pessoas, independente da capacidade motora, cognitiva ou sensorial, sem adaptação especial, de forma a assegurar conforto, autonomia e segurança no uso. Já Arquitetura inclusiva é a arquitetura da diversidade humana, na qual deve ser respeitada através da qualidade e inclusão de todos no espaço. Arquitetos e designers devem aplicar o conceito do Desenho Universal, nas edificações públicas, coletivas, vias públicas, mobiliários e habitações.
Projetar uma casa acessível vai além do espaço físico, pequenos detalhes podem dar independência e comodidade às pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. A arquiteta especializada em acessibilidade, Renata Mello, explica que a arquitetura acessível deve estar focada nisso. “As portas devem ter largura mínima de 80 centímetros e as maçanetas devem ser de alavanca; as janelas e tomadas de um dormitório devem estar numa altura mais baixas”, completa. Há também outros recursos disponíveis como barras de apoio, sinalizações visuais e sonoras, rampas e pisos antiderrapantes entre outros.
Pessoas com deficiência física, como Joyce, precisam de alguém para ajudá-las em diversas atividades, Renata alerta a necessidade, por exemplo, de um banheiro amplo. “O espaço precisar ter uma área maior de circulação, para que o cuidador de uma pessoa tetraplégica tenha mais espaço quando for auxiliar no banho”. Já para atender Giovanna Maira, a arquiteta recomenda que, além de móveis fixos, haja informações em braille em alguns elementos da casa.
Apesar das dificuldades de locomoção, as pessoas conseguem se adaptar mesmo sem acessibilidade, mas isso não garante qualidade de vida. A Arquitetura Inclusiva se tornou lei e a acessibilidade deve ser exigida em todos os espaços públicos ou privados, habitações ou moradias. “São raríssimos os locais que estão preparados, não só para os deficientes, mas para qualquer cidadão com alguma necessidade especial. Temos o direito de escolher aquilo que esteja preparado para nossas limitações e que nos respeite”, conclui Giovanna.
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